A crescente preocupação com a questão ambiental e a agroecologia traz destaque a iniciativas como a Comunidade que Sustenta a Agricultura em Curitiba

Reportagem: Bárbara Tanaka | Edição: Monique Portela
De
acordo com o último Censo Agropecuário, realizado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2006, 84,4% dos
estabelecimentos agropecuários do país são da agricultura familiar — o
que, em termos numéricos, representa 4,36 milhões de estabelecimentos.
Apesar
da importância da agricultura familiar para o país, assegurada por lei
na Constituição Federal, as políticas públicas adotadas ainda
privilegiam os latifundiários: segundo dados do Ministério da
Agricultura (2016), estima-se que neste ano, R$ 187,7 bilhões foram
destinados à agricultura empresarial, enquanto apenas R$ 28,9 bilhões
foram para os agricultores familiares.
Uma
estrutura como essa abre margem para iniciativas civis em torno da
agricultura familiar e de questões envolvendo a sustentabilidade e a
agroecologia — como por exemplo, a Comunidade que Sustenta a Agricultura
(CSA).
O que é a CSA
A
ideia de comunidade que sustenta a agricultura surgiu no Japão, na
década de 1960, a partir da filosofia de que o produto tem que ter a
cara do produtor. Nos anos 1980, os Estados Unidos fizeram adaptações
nesse modelo de agricultura, que logo foi se espalhando em diversos
países com a iniciativa CSA.
O
agricultor deixa de vender seus produtos através de intermediários,
como mercados, e passa a contar com a organização e o financiamento
coletivo de sua produção por meio da participação de membros
consumidores. O grupo de pessoas paga uma mensalidade fixa aos
agricultores, que recebem para fazer a manutenção de suas fazendas e
fornecer uma cota de produtos orgânicos sazonais semanalmente para os
associados.
Todos
os custos de marketing são eliminados e a mensalidade é discutida
anualmente em assembleia com todos os membros, levando em conta as
necessidades do agricultor, sem a interferência dos valores do mercado
convencional. Isso faz com que os produtos tenham preço reduzido, além
de alterar a lógica mercantil e trazer uma relação mais intimista entre
produtor e consumidor.
“O
foco é no agricultor. Nós buscamos criar um vínculo entre as famílias e
os agricultores, de forma a gerar um elo de confiança”, diz Raquel
Makibara, co-fundadora da CSA em Curitiba.
A
organização não-governamental chegou ao Brasil no final de 2014, e hoje
conta com mais de 60 iniciativas em sete estados. Em Curitiba, a CSA
existe desde julho de 2015 e possui 4 pontos de coleta espalhados pela
cidade. O mais antigo se localiza na Escola Waldorf Turmalina, no bairro
Campo Comprido — lá, os produtos são distribuídos independentemente
entre os membros da comunidade, que pagam R$ 188,20 mensais para buscar
os alimentos semanalmente.
Toda
segunda-feira são disponibilizadas duas cotas: duas listas com sete
tipos de alimento diferentes que podem ser escolhidos a partir da
quantidade dividida igualmente entre todos os membros. Os produtos são
entregues na escola e vêm direto do agricultor. “A CSA trabalha como uma
escultura social a partir dos princípios de transparência,
responsabilidade e colaboração. O que os produtores e coprodutores fazem
é um modo de agricultura livre, que realmente se transforma em uma obra
de arte”, conta o fundador da CSA em Curitiba André Garcia.
Colaboração mútua
Um
dos pilares do modelo de agricultura proposto pela CSA é o da
colaboração mútua. A responsabilidade pela produção dos alimentos e pela
preservação ambiental é compartilhada entre produtores e consumidores,
transformando a vivência e as decisões sobre o cultivo da terra em um
ensaio para o coletivo. Assim, a própria comunidade da CSA deixa de ser
apenas um agente de consumo, tornando-se coprodutora (ou
co-agricultora).
A
especialista em direito socioambiental Flávia Sotto Maior sabe bem como
é essa experiência. Ela participa da CSA há quase um ano e enfatiza a
importância do senso de comunidade que o projeto traz — pretende,
inclusive, implantar um posto de coleta no seu prédio, no bairro Cabral.
“Tenho muitos vizinhos idosos que vão adorar a ideia de não precisar de
tanta locomoção para garantir alimentos frescos e de qualidade. É assim
que nós fazemos crescer o debate quanto à agroecologia aqui em
Curitiba, principalmente em relação a uma questão tão relevante como o
ciclo do alimento”, relata Flávia.
Dias de campo
A
CSA também trouxe a proposta de realizar, uma vez por mês, uma visita
às fazendas onde são produzidos os alimentos vendidos nos pontos de
coleta. A ideia é fazer com que o coprodutor acompanhe a produção em uma
filosofia de autogestão — participando do processo de cultivo e
colheita, adultos e crianças conhecem de perto o dia a dia dos sítios e
se sentem mais próximos do agricultor. O produtor Carlos Roberto
Kmiecik, mais conhecido como Carlinhos, é dono do Sítio São Carlos, em
Campo Magro e fornece para o ponto de coleta na Escola Turmalina. “É
sempre uma experiência nova e muito legal. Também trabalho em feiras
orgânicas em Curitiba, mas consigo tirar 40% da minha renda com a CSA”,
diz Carlinhos.
O que fazer para participar?
Hoje,
a CSA conta com quatro pontos de coleta em Curitiba: a Escola
Turmalina, no bairro Campo Comprido; uma casinha no Jardim Ambiental, no
Alto da XV; o Condomínio Giardino di Lucca, em Santa Felicidade; e a
escola Cordão Dourado, no Pilarzinho. O mais recomendado é que os
membros façam a coleta dos alimentos no ponto mais próximo de onde eles
moram.
Para
realizar o cadastro na CSA, conseguir maiores informações e consultar o
preço e a quantidade de cotas desejadas, é só enviar um e-mail para o
núcleo de Curitiba: curitibacsa@gmail.com
Fonte: https://medium.com/@jornalcomunicacao/comunidade-que-sustenta-a-agricultura-%C3%A9-caminho-alternativo-para-a-sustentabilidade-b5bf173cedab#.7jc5auccq
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