domingo, 27 de setembro de 2015

Salvando a infância

Um memorando para uma Pedagogia do Fazer

 

Dr. Peter Guttenhoefer

Tradução realizada por Ute Craemer

  1 INTRODUÇÃO


Em nossa bela terra, a natureza está em perigo. Flores e animais estão deixando o planeta, os climas ao redor do mundo estão doentes. Mas algo mais está em risco: a infância.A pressão sobre as crianças está aumentando em todos os cantos do mundo: elas devem aprender a ler aos três/quatro anos e estão expostas a um currículo engessado, inadequado e rígido estabelecido pelo governo. São, ainda, induzidas a apresentar desempenhos constantemente melhores, num ambiente onde o ensino é intelectualizado e repleto de testes Quase sem chances de se movimentarem e de vivenciarem a arte e o brincar...

Além disso, em seus lares, essas crianças enfrentam famílias desestruturadas, stress dos pais, desemprego, pobreza e a solidão em frente à TV e ao computador. Mesmo os filhos de pais ricos são igualmente pobres!

Sugiro que tomemos, pelo menos, alguns passos básicos para salvar a infância. Ofereçamos para os nossos filhos dez anos de infância no mínimo! Só assim terão imaginação e criatividade suficientes para um novo e melhor modo de vida na terra, como adultos. Referimos-nos aqui ao resgate da terra e das forças da vida rejuvenescedoras do nosso planeta.

Devemos repensar completamente o nosso conceito de "escola"! Precisamos de escolas onde as crianças possam viver brincar e trabalhar para que seu dom inato de imaginação possa se transformar gradualmente na criatividade adulta, onde as crianças possam viver sem pressão e medo e possam ser felizes e saudáveis ao mesmo tempo em que aprendem.

2 ESCOLAS AMEAÇAM A INFÂNCIA!


A civilização moderna, que começou na Europa Ocidental e se espalhou pelo mundo, é hostil às crianças. A vida urbana dramaticamente demonstra isso: cada movimento da criança sem supervisão é um perigo em potencial! Brincar é proibido. Infância e velhice são apenas efeitos colaterais irritantes e inevitáveis da vida... A infância deve ser “aproveitada”! Logo que aparecem os primeiros sinais da imaginação própria da criança pequena - o governo entra em cena e exige a frequência escolar obrigatória para todos; a criança entrar na escola com quatro anos é tendência mundial. Além disso, os professores são notoriamente mal pagos em quase todos os países do mundo, fazendo com que professores e alunos sintam-se igualmente infelizes e pareçam se tornar “inimigos” entre si. A prática educacional mostra que a criança é vista como um objeto de socialização, não como sujeito de seu próprio ser. Ela é vista não como uma pessoa habilitada a desenvolver-se livremente e a educar-se, mas como portadora de uma obrigação: ir para escola. Na verdade, é o adulto que tem a obrigação, o dever de oferecer educação à criança, pois a criança nasce com direitos. Essa nova consciência se reflete na Convenção dos Direitos da Criança das Nações Unidas, ratificada por quase todas as nações do mundo. Mas só podemos nos aproximar do ideal formulado se primeiro reconhecermos as palavras de Janusz Korczak, "A criança não se torna humana, ela nasce humana".

A pressão na escola, o ambiente familiar e o abuso infantil – onde o instinto sexual bruto e o egoísmo exacerbado são combinados com o instinto marcante de posse desenfreada – geram uma infância destroçada.

Foi difícil reconhecer a criança como sujeito de sua própria educação, mas essa ideia acabou por se manifestar na nossa consciência. O próximo passo necessário será perceber, de acordo com Steiner, que "toda a educação é auto-educação e que os nossos professores e educadores são, no fundo, apenas o ambiente da criança que possibilita a sua auto-educação."

Adaptar o ambiente às necessidades da criança para o seu desenvolvimento sadio exigiria uma mudança profunda na maneira de viver e pensar de cada adulto. A civilização toda deveria ser transformada a partir de seu alicerce O ponto de partida é: professores e alunos trabalham e aprendem juntos. As crianças de hoje não aceitam mais o professor que parece um “depositário de conhecimentos teóricos” e não aceitam mais um currículo e salas de aula que as isolam da vida real. Muitos se resignam. Mais tarde, aos 12 anos, começam a se defender e os problemas resultantes são encaminhados pelos professores como "problemas de disciplina". Mas a verdade é que a criança, por natureza, quer ser ativa e hoje a escola não permite isso.

A vontade da criança requer atividade: professores e educadores recebem a partir das crianças o programa da sua própria auto-educação. A Pedagogia Waldorf, criada por Rudolf Steiner, foi originalmente baseada no fato de que o professor é uma pessoa que aprende e não um professor necessariamente treinado academicamente. Hoje podemos afirmar que os professores devem ser pessoas que trabalham. Por que lavradores e artesãos, que trabalham de forma produtiva - cultivando a terra e trabalhando com suas mãos - estão excluídos da educação de nossos filhos? O professor típico é uma pessoa que foi separada do trabalho produtivo e é pago pela sociedade para se concentrar exclusivamente na educação das crianças. Até as crianças são despojadas de todo o trabalho para estarem livres para aprender só em sala de aula. Nos países ricos, essa situação continua até 25 ou 30 anos de idade. O fato de que isso não é mais economicamente viável torna-se claro para todos, mas o fato de que essa situação está destruindo a terra é visível apenas para alguns.

A “escola hoje” é o resultado de processos culturais na Europa nos últimos 250 anos e apelou para uma fragmentação da vida humana. Essa fragmentação é dolorosamente visível na separação do aprender e trabalhar, do artesanato e da educação, da sociedade industrial/urbana e da vida rural. Hoje a escola é um lugar onde as crianças são alienadas da vida. A motivação dos alunos se resume à necessidade de passar nos exames e assim serem aceitos pela sociedade no futuro. Isso é prejudicial às crianças porque elas vivem no presente percebendo-se diretamente como seres espirituais e sensoriais e não se projetam no futuro.

3 TRANSFORMAÇÃO DA ESCOLA


Como deve ser uma escola que cria um ambiente adequado para as crianças dos nossos tempos? Novalis já indicou o caminho no seu fragmento 'Paedagogik': "A educação das crianças, tais como a formação do aprendiz não funciona por meio de educação direta, mas somente quando elas podem participar progressivamente do trabalho dos adultos." Portanto, o educador deve estar ativo! Não ensinando diretamente às crianças, mas trabalhando em atividades que se originam nas necessidades da vida. Isso também inclui escrita, leitura, cálculo e canto. Como aprende esse 'aprendiz'? Durante os primeiros sete anos aprende através da imitação e nos próximos sete anos, fazendo o que os adultos fazem. Criam-se na criança imagens de adultos atuando em um trabalho significativo, um trabalho digno de imitação. E a criança pode copiar o adulto porque percebe o adulto trabalhando de forma visível e significativa movendo seus braços e pernas no trabalho. A alma da criança, seu gênio vive dentro do brilho de tais atividades e se manifesta no processo de auto-educação quando a criança imita o adulto. A isso chamamos de brincar.

Atividades dignas de imitação podem ser encontradas na agricultura, em todos os tipos de trabalhos manuais ou domésticos, onde bens são produzidos transformando a matéria. Infelizmente, essas atividades não fazem parte do currículo escolar. Rudolf Steiner tentou introduzi-las no campo da educação; esse é um dos aspectos essenciais da educação Waldorf.

Agora estamos percebendo, principalmente através da agricultura, que a nossa visão de mundo está fragmentada, que a busca egoísta do bem-estar pessoal está destruindo nosso planeta. Isso pode ser visto claramente no desenvolvimento da agroindústria, em seus efeitos sobre a terra, as paisagens, abelhas e outras criaturas, na baixa qualidade dos alimentos, no sofrimento dos animais e no desaparecimento das florestas.

A destruição de sistemas ecológicos e os perigos da mudança climática estão despertando em nós a necessidade de novas estratégias. Os adultos devem deixar para trás a agricultura intensiva e atividades similares que só buscam o lucro econômico e recuperar o apreço e a reverência para com a terra. A criança deve ser orientada para novas formas de trabalho que demonstram respeito por todos os seres na Terra e inclusive nos prestam serviço.

As crianças não devem mais ser encerradas nas escolas infantis e escolas de ensino  fundamental, mas devem acompanhar lado ao lado os adultos em atividades significativas. Os pequenos brincam, e à medida que crescem cada vez mais, participam dos trabalhos dos adultos, como Novalis escreveu: “Existe a necessidade urgente de um novo currículo com uma nova valorização do que é essencial e onde a língua nativa, literatura e matemática são tão importantes quanto o trabalhar com a terra e com as mãos”.

O ambiente ideal para esse tipo de educação seria um sitio. Mas para conseguir, de um lado, um "entorno integro" (Goethe, Pädagogische Provinz) para a auto-educação da criança e, de outro, um espaço que apoia e nutre os agricultores, o sitio deve se transformar profundamente.

Não se trata de uma fazenda para aprendizes, mas de uma sitio onde as pessoas se dedicam à agricultura orgânica e biodinâmica, a fim de recuperar as forças juvenis da própria terra.

Nenhuma instrução direta, mas a integração das crianças nos processos de trabalho, a convivência com o "fluxo volitivo" dos adultos. As salas de aula também fazem parte desse ambiente e também precisam de grandes mudanças. Salas internas e ambientes externos são mesclados.A maneira de conseguir isso depende de vários fatores que devem ser discutidos em detalhes.

Claramente, as ideias aqui mencionadas só mostram o ideal. A agricultura orgânica e biodinâmica pode salvar a educação de hoje. Duas ideias apontam para esse caminho:

1) Um sitio seria o ideal, mas não um requisito obrigatório. As "escolas" têm surgido principalmente nas áreas urbanas e é aí, acima de tudo, onde a mudança deve ocorrer. Como mencionado, a civilização urbana deve ser transformada e a mudança só pode ocorrer através de crianças que têm sido educadas de uma forma totalmente nova ao longo de décadas ou séculos.

2) Respeitando o atual desenvolvimento político, social e cultural da maioria dos países, a mudança de paradigma educacional só será possível se estivermos dispostos a imaginar a transformação da "escola" em um espaço de aprendizado, onde as crianças aprendem para serem capazes de moldar o futuro.

3) O pequeno é belo ( Small is beautiful livro de H. Schuhmaker). O que aprendemos - e como aprendemos - nos primeiros anos de vida é extremamente importante e vital para a nossa biografia. Não focamos aqui os primeiros três anos de vida da criança porque gostaríamos que todas elas crescessem dentro do seio da família. Como essa não é a realidade para centenas de milhares de crianças, as dificuldades decorrentes não podem ser resolvidas ou discutidas neste artigo.

Queremos aqui desenhar um esboço de um espaço para crianças de 4 a 10/11 anos, propício para o aprendizado, onde a criança possa viver aprender e crescer. É um esboço de educação contínua incluindo três anos de jardim de infância e quatro anos de escola, totalizando sete anos básicos. No final desse período a criança chega a um ponto onde ela já desenvolveu tanto o sentimento anímico de pertencimento (chamada "coerência" pelas pesquisas da salutogenese) como a força para reconhecer e superar os obstáculos (chamado de "resiliência").

Na antropologia antroposófica, esse momento do desenvolvimento da criança é chamado de "Rubikon" e significa que a criança estabeleceu sua saúde biológica individual, anímica e mental que lhe permite enfrentar as crises no futuro.

O ideal seria que a criança pudesse crescer pelo menos dez anos em um ambiente onde sua personalidade desabrochasse livremente e em tempo hábil (conforme exigido pela Constituição) e assim ser preparada para os desafios futuros. Dentro deste período do jardim de infância e dos quatro anos seguintes, não seria necessário seguir as normas de aprendizagem do currículo estadual e a pressão de testes e provas que elas acarretam. Nos quarto ano a criança estaria preparada para atender os padrões do estado e capacitada a integrar-se perfeitamente a qualquer escola local. Em muitos países o "homeschooling", isto é, a “educação em casa” é uma opção legal nos primeiros anos. Assim, tanto nos três ou quatro primeiros anos de escola como nos anos de jardim de infância as crianças ficariam livres de obrigações curriculares.

Devemos trabalhar com princípios pedagógicos com base na compreensão da natureza do desenvolvimento infantil durante esse período de sete anos; especialmente na transição do jardim para a primeira série focando as condições específicas de cada criança. Isso criaria uma estrutura que minimizaria os problemas desencadeados pela atual tendência global de escolarização precoce. Cumpriríamos a exigência mínima de atendimento escolar, mas, ao mesmo tempo, permaneceríamos livres para poder tomar nossas próprias decisões pedagógicas adaptadas a cada criança.

O que seria necessário na formação dos educadores não é aprendido na faculdade e nem em seminários para professores. Tampouco precisaríamos nos preocupar com financiamento oneroso de edifícios uma vez que finanças, organização e administração teriam custo baixo: O pequeno é belo - como o título do famoso livro de EF Schumacher (1973) - "Small is beautiful".

Um agravante é que em alguns países - principalmente no hemisfério sul – as instituições políticas do colonialismo continuam disseminar na alma dos jovens a forma de viver e pensar americana e europeia. Os países são politicamente livres, mas lutam bravamente para recuperar a sua identidade. A elite desses países envia seus filhos para "colégios internacionais"

ou aos internatos das antigas potências coloniais. Muitas vezes, as escolas nesses países estão mal equipadas e planejam seu currículo de acordo com os padrões ocidentais. Esses critérios implicam uma espécie de "currículo oculto", longe dos resultados das recentes pesquisas sobre a educação e distantes também da sabedoria vital dos povos indígenas. Para conseguir qualquer contribuição direcionada a uma nova identidade, as escolas devem primeiro se concentrar em suas próprias raízes culturais e espirituais, na sua própria língua, no seu ambiente cultural. Só é possível criar essa nova identidade nos primeiros anos da educação para evitar qualquer conflito com as autoridades educacionais locais. No ensino superior a educação convencional exige a adaptação da criança ao sistema social vigente, motivo a mais para incentivar a criação de pequenas escolas livres de muitas exigências governamentais.

4 ESCOLA BÁSICA


Nos primeiros sete anos tratamos de possibilitar a infância, isto é, a saúde individual, a cultura geral e o exercitar do trabalho prático. A Pedagogia Waldorf, que se espalhou ao redor do mundo durante os últimos 90 anos, trabalha de acordo com os princípios e métodos fundamentais derivados de estudos antropólogicos da Antroposofia de Rudolf Steiner. Além do desenvolvimento da inteligência e da vida anímica, há uma ênfase no desenvolvimento da vontade. De acordo com as ideias básicas da “pedagogia da ação” aqui descrita, a pedagogia Waldorf também requer uma revisão. Se olharmos para o sofrimento da criança precisamos nos perguntar "Que conhecimentos as crianças precisam adquirir hoje que ainda serão úteis daqui 30 anos?" Uma das respostas pode ser aquela descrita aqui como escola básica. Mais ainda por que uma mudança do currículo e dos métodos de ensino no ensino médio ou universitário é muito mais difícil? O período incluindo o jardim de infância e ensino básico pode ser mais facilmente transformado.

A beleza e a profundidade da Pedagogia Waldorf já se desenvolvem nos quatro primeiros anos de escola; trabalho e brincar andam de mãos dadas, o mundo é revelado em imagens, os alunos e professores trabalham juntos construindo uma comunidade de destino sem estimular a competição, mas com um sentido de fraternidade. Maiores problemas começam na sexta serie, na época que o relacionamento da criança com o mundo muda fundamentalmente.

Como princípios de ensino completamente novos são exigidos na idade de doze anos, essa proposta de escola básica é concebida apenas para crianças dos 4 aos 10 ou 11 anos.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Neste artigo expus uma imagem de uma forma mínima de uma escola que oferece uma educação holística para crianças dos 4 aos 10/11 anos. Não se trata de um fragmento de uma escola convencional, mas é uma instituição completa, um modelo, um entorno educativo novo para as crianças.

Um tal espaço educativo pode ser criado com relativamente poucos recursos financeiros e humanos. Para visualizar essa escola básica, devemos abandonar o grande ideal de uma Escola Waldorf de 12 anos de educação levando em conta que as habilidades e competências das crianças estão em jogo nestes tempos de crise do século 21 e deste modo daria para garantir para um número maior de crianças uma educação adequada à sua natureza.

A escola básica como espaço de aprendizagem pode dar um novo impulso. No momento, falta-nos a imaginação para criar uma imagem detalhada desses espaços. O que nós queremos é construir “barcos salva-vidas” para a infância e ao mesmo tempo, para o poder de imaginação da humanidade.

Fonte: Escritos, Revista de Ciências Humanas. Curitiba, v.9, n.1, p. 01-86. jan/jun, 2013. Disponível em < http://faculdadebagozzi.edu.br/portal/39-257-411/publicacoes-revistas-cientificas-escritos---revista-de-ciencias-humanas>

 

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